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Um “construtor de pontes entre o Ocidente e a África”. Era assim que o célebre saxofonista camaronês Manu Dibango, um astro mundial do jazz e do afrobeat, costumava se descrever. Ele faleceu em hospital de Paris nesta terça-feira (24), aos 86 anos, após testar positivo para coronavírus há alguns dias. O artista foi o compositor de Soul makossa, um sucesso global dos 1970 que foi resgatado por vários DJs e fenômenos da música pop como Michael Jackson e Rihanna. O funeral será realizado nesta terça, em uma cerimônia íntima. Uma homenagem será organizada posteriormente, quando possível, afirma a página do músico nas redes sociais.
“Tenho a harmonia de Bach e de Handel no meu ouvido com as letras camaronesas. É uma riqueza poder ter pelo menos duas possibilidades. Na vida, prefiro ser estéreo do que mono”, disse, em entrevista à AFP em agosto de 2019, pontuando suas respostas sempre com riso estrondoso e comunicativo.
“Seu legado, imenso, permanecerá. Sua criatividade era genial. Fazia as pessoas dançarem, com eficiência formidável”, comentou Martin Meissonnier, DJ e produtor, “arrasado com sua morte”. “O mundo da música perde uma de suas lendas”, lamentou nas redes sociais o ministro da cultura francês, Franck Riester. O cantor Youssou Ndour tuitou seu luto: “Você foi um irmão mais velho, um orgulho para Camarões e para toda a África”. A jornada de Dibango, no entanto, em nada predestinava uma carreira artística.
Emmanuel N’Djoké Dibango nasceu em 12 de dezembro de 1933 em Douala, no Camarões, em uma família protestante muito rigorosa. “Meu tio paterno tocava órgão, minha mãe conduzia o coral. Fui uma criança criada nos ‘Alleluia’. Ainda assim, sou africano, camaronês e tudo mais”, confidenciou à AFP. Seu pai, funcionário público, o enviou à França aos 15 anos, na esperança de torná-lo engenheiro ou médico.
Após 21 dias de viagem de navio, Manu Dibango desembarcou em Marselha e seguiu para Saint-Calais, em Sarthe. Na bagagem, “três quilos de café” – uma mercadoria rara no pós-guerra e título de sua autobiografia – para pagar a família que o acolheu. Depois, estudou em Chartres, onde deu seus primeiros passos musicais no bandolim e no piano.
Nesse universo branco, o adolescente que “não conhecia a cultura africana” se identificou com as estrelas afro-americanas da época. Cont Basie, Duke Ellington e Charlie Parker se tornaram seus “heróis”. Papa Manu, como também costumava ser chamado, descobriu o saxofone durante um acampamento de verão. Arrastando os estudos, fracassou na segunda parte do seu bacharelado. Seu pai, insatisfeito, interrompeu o envio de dinheiro em 1956.
Ele então partiu para Bruxelas, onde passou a tocar nos mais diferentes locais. “Na minha época, tinha que tocar em cabarés, bailes, circos. Tocar com um acordeonista como André Verchuren garantia algumas datas”, contou. Sua estadia na Bélgica foi marcada por dois encontros: a loira Marie-Josée, conhecida como Coco, que se tornou sua esposa, e Joseph Kabasélé, maestro do jazz africano. Na eferverscência das independências, o músico congolês abriu as portas da África para ele.
A virada artística
Manu Dibango o seguiu até Léopoldville (antigo nome de Kinshasa), onde lançou a moda do twist em 1962, e então abriu uma boate em Camarões. Três anos depois, voltou à França, sem um tostão. Tornou-se pianista de rock para Dick Rivers, organista e depois maestro de Nino Ferrer. Em 1972, foi convidado a compor o hino do Campeonato Africano das Nações de futebol, a ser realizado em Camarões. No lado B do disco, gravou Soul Makossa. DJs de Nova York se apaixonaram por esse ritmo sincopado. Outra vida começou.
O saxofonista foi convidado para tocar no teatro Apollo, templo da música afro-americana no Harlem, e agregou novas misturas fazendo turnês na América do Sul. Em 1982, veio outra forma de consagração. Soul Makossa foi sampleada por Michael Jackson no álbum Thriller, na faixa Wanna be startin somethin, mas sem autorização. O camaronês iniciou o primeiro de uma longa série de processos por plágio, que terminou em um acordo financeiro.
Mas a sua vitória está em outro lugar: Manu Dibango se tornou uma referência da World Music.

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Ícone mundial do afro-jazz, Manu Dibango, morre após testar positivo para coronavírus